Entenda o que é o 'banho de óleo', ritual em escolas de aviação que ocorreu antes de morte de aluno no Paraná

  • 18/07/2026
(Foto: Reprodução)
Entenda o que é o 'banho de óleo', que provocou a morte de engenheiro no Paraná O chamado "banho de óleo" é um ritual tradicional realizado em diversas escolas de aviação no Brasil para celebrar marcos importantes na formação de pilotos, como a realização do primeiro voo solo. A prática voltou ao centro das atenções após a morte do engenheiro Gustavo Henrique Lara, de 27 anos, que sofreu uma grave reação alérgica depois de participar da cerimônia em Ponta Grossa, no Paraná. Segundo a Polícia Civil, Gustavo recebeu um banho com óleo usado em motores de aeronaves após concluir uma etapa da formação. O aluno passou mal logo em seguida, sofreu uma reação anafilática — a forma mais grave de reação alérgica — e morreu no hospital. O caso é investigado. ✅ Siga o g1 Ponta Grossa no WhatsApp O que é o 'banho de óleo'? Ao g1, Andrea Bon, ex-comissária de bordo por 12 anos e proprietária da escola de aviação civil TO FLY, explica que a tradição funciona como um "batismo" na carreira de piloto. Após atingir um marco considerado importante, o aluno recebe um banho com óleo de motor de aeronave, normalmente aplicado por instrutores ou colegas, como forma de comemorar a conquista. Nas redes sociais há vários registros do costume de dar 'banho de óleo' em novos pilotos de avião Reprodução / TikTok Casio.Lucy / YouTube Mamãe Piloto / Instagram Micaely The Pilot A prática é mais conhecida após o primeiro voo solo, quando o estudante decola e pousa sozinho pela primeira vez, mas também pode ocorrer em outras etapas da formação. "Geralmente acontece quando a pessoa alcança algo novo na carreira. No caso dos pilotos, é comum após o primeiro voo solo ou quando mudam de categoria, como a passagem de piloto privado para piloto comercial. Entre os mecânicos também existe essa tradição", afirmou. Segundo Andrea, apesar de ainda existir em alguns aeroclubes, o "banho de óleo" também é alvo de críticas de pilotos e especialistas. "Atualmente, essa prática tem sido bastante condenada pelas autoridades aeronáuticas. Quando acontece, costuma ser de forma mais discreta. Os óleos utilizados nos motores contêm componentes químicos que podem causar dermatites, reações alérgicas e outros problemas de saúde. É uma tradição, mas que também apresenta riscos." Ela afirma que não participou de uma cerimônia desse tipo durante o período em que trabalhou na aviação comercial. "Entrei na TAM, atual LATAM, em 2005. Por ser uma empresa grande e consolidada, essa prática já não acontecia. Mas, conversando com pessoas de aeroclubes e escolas de aviação, sabemos que ela ainda existe em alguns lugares." Aluno que morreu após ritual com banho de óleo de motor em escola de aviação do Paraná teve grave reação alérgica, diz Samu Aluno de escola de aviação morre após ritual de 'banho de óleo' no PR Tradição aparece em vídeos nas redes sociais Nas redes sociais, o ritual é frequentemente registrado por pilotos e criadores de conteúdo ligados à aviação. Em um vídeo publicado pelo canal Mamãe Piloto, por exemplo, a influenciadora mostra o "batismo" de uma piloto após uma etapa da formação. Na descrição da publicação, explica que o momento faz parte da tradição da aviação. Além do Brasil, há registros da tradição em fóruns, redes sociais e canais especializados em aviação de outros países, como Colômbia e Estados Unidos, onde pilotos compartilham vídeos e relatos de cerimônias semelhantes para marcar o primeiro voo solo e outras conquistas na formação. O que aconteceu no Paraná Segundo a investigação, Gustavo Henrique Lara participou do ritual na noite de quinta-feira (16), após concluir uma etapa da formação aeronáutica. Depois do banho de óleo, ele apresentou um grave comprometimento de saúde. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) informou que o aluno sofreu uma reação anafilática, seguida de uma crise convulsiva e três paradas cardiorrespiratórias. As duas primeiras foram revertidas, mas ele não resistiu à terceira. O instrutor responsável por jogar a substância foi preso em flagrante por suspeita de homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e liberado após pagamento de fiança. A Polícia Civil investiga a composição do óleo utilizado, a quantidade aplicada, as regiões do corpo atingidas e se há relação entre o ritual e a morte do aluno. Gustavo Henrique Lara Redes sociais A escola de aviação informou, em nota, que o ritual ocorreu fora das dependências do centro de instrução, manifestou solidariedade à família da vítima e disse que vai colaborar com as investigações. Em nota, o Centro de Instrução de Aviação Civil (CIAC) do Aeroclube de Ponta Grossa manifestou pesar pelo falecimento do aluno. Riscos à saúde Após a morte de Gustavo, a discussão sobre o ritual ganhou força na comunidade aeronáutica. Especialistas ouvidos pelo g1 defendem que o simbolismo da tradição pode ser preservado sem o uso de óleo de motor, substituindo a prática por alternativas como banho de água ou outras formas de celebração. A dermatologista Rafaela Salvato, da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), alerta que o principal problema é que o produto utilizado nesses rituais foi desenvolvido para funcionamento de motores aeronáuticos, e não para contato com o corpo humano. "O óleo de motor aeronáutico é um produto industrial, formulado para suportar temperatura e atrito dentro de uma máquina, não para tocar tecido vivo." A médica acrescenta que o maior temor é justamente a possibilidade de uma reação alérgica grave e imprevisível. Segundo ela, a anafilaxia não depende da quantidade de produto utilizada e pode ocorrer mesmo em pessoas sem qualquer histórico conhecido de alergias. Salvato destaca ainda que o próprio contexto do ritual pode dificultar o reconhecimento dos primeiros sinais de uma emergência médica. O que diz a Anac Em nota, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) lamentou a morte de Gustavo Henrique Lara e afirmou que produtos químicos aeronáuticos, como óleos e lubrificantes de aviação, não devem, em hipótese alguma, entrar em contato com a pele, conforme orientam os próprios rótulos desses materiais. A agência alertou que o uso desses produtos em rituais de celebração traz riscos à saúde e pode, inclusive, levar à morte. A Anac também pediu que escolas de aviação, aeroclubes e demais organizações de instrução revejam esse tipo de tradição. Segundo a agência, a segurança deve ser sempre a prioridade na aviação e qualquer celebração precisa ser realizada de forma responsável, sem expor alunos, instrutores ou terceiros a riscos. LEIA TAMBÉM: Céu Azul: Professora de berçário é presa suspeita de mandar fotos íntimas de bebês Imagens: Trabalhadores encontram caminhonete enterrada durante obra de prefeitura Crime: Dedetizador furta cartão de freiras após encontrá-lo com senha anotada VÍDEOS: Mais assistidos do g1 Paraná Leia mais notícias no g1 Paraná.

FONTE: https://g1.globo.com/pr/campos-gerais-sul/noticia/2026/07/18/entenda-o-que-e-o-banho-de-oleo-ritual-em-escolas-de-aviacao-que-ocorreu-antes-de-morte-de-aluno-no-parana.ghtml


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